Carlos Fajardo, Silvia Velludo, Renato Rios

 Dendera, temple of Hathor, Sacred Lake. Ancient Architecture, 1980.  S. Lloyd e H.W.Muller, Ed Faber & Faber/Electa, Milano. p.165

Uma leitura sobre o nosso acervo a partir de obras históricas de artistas representados pela galeria. Neste primeiro bloco, partimos da obra concebida por Carlos Fajardo para a Capela do Morumbi no ano de 1989, para apresentar "Projeto de Auréola", concebido entre 1998 e 1999 por Silvia Velludo e "Estrela Branca", pintura de Renato Rios que integra a série Luzeiro, de 2020.

 

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O complexo do templo de Dendera, dedicado a Hathor – ou Ísis – situa-se ha 2,5 km da cidade de Dendera, no Egito. Além de Deusa do Amor, Hathor era considerada também a deusa da cura, o que explica a presença de um sanatório nesse complexo, frequentado durante muito tempo por peregrinos que acudiam aos banhos em águas sagradas e aos possíveis encontros que poderiam ter com a deusa através dos sonhos. Também parte do complexo, o lago sagrado fornecia a água utilizada no Sanatorium e era onde os sacerdotes performavam seus rituais de ablução. Hoje ocupado por palmeiras, é composto por degraus de pedra que dão acesso ao seu interior a partir dos seus quatro cantos, estruturando-se em blocos de arenito, material característico das construções egípcias.

Carlos Fajardo. Capela do Morumbi, São Paulo, 1991

Carlos Fajardo

 

Sem título, 1989

tijolos

100 x 420 x 420 cm

 

id 2352

Carlos Fajardo

A Capela do Morumbi foi reconstruída em 1940 pelo arquiteto Gregori Warchavchik a partir de uma edificação de ruínas em taipa de pilão encontrada na Fazenda do Morumbi. A falta de documentos históricos não permite que se afirme com precisão a origem dessas ruínas, podendo elas terem sido parte de uma capela consagrada à São Sebastião dos Escravos ou uma capela acompanhada de sepulturas destinada aos proprietários da fazenda. Na São Paulo dos séculos XVI, XVII, XVIII a taipa de pilão era a principal técnica construtiva utilizada.

 

Durante o costumeiro trajeto que fazia entre São Paulo e Cotia no final da década de 1980, Carlos Fajardo podia observar inúmeras pilhas de tijolos produzidos pelas olarias na beira da estrada. Aquela imagem levou o artista a imaginar outras configurações de blocos empilhados, refletindo, através do desenho, sobre volumes físicos e virtuais. A relação dentro/fora, frequente nas obras produzidas por Fajardo, se manifesta em diversos aspectos do trabalho. O tijolo pode ser entendido como uma peça estrutural de uma construção arquitetônica, mas também como aquilo que divide o espaço exterior do interior, integrando as duas dimensões de maneira simultânea. A inversão do volume da pirâmide nos permite pensar nessa relação a partir da oposição entre céu e terra – ou entre aquilo que está abaixo e aquilo que está acima de nós – inerente a ambientes sagrados como a Capela do Morumbi e o Lago de Dendera.

Carlos Fajardo. Estudo/projeto, 1989

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Silvia Velludo. Projeto de Auréola, 1998-1990, projeto de intervenção

Silvia Velludo

Também de dentro de um carro, durante um trajeto rodoviário, surge "Projeto de Auréola", concebido entre 1998 e 1999 por Silvia Velludo. O caráter contemplativo que configura o trânsito pela rodovia, nos permite conceber o espaço em escala ampliada, tendo o céu como referência. A partir de um trajeto que fazia de maneira recorrente, Velludo projeta uma enorme estrutura circular que pudesse orbitar a mata redonda localizada no alto de uma colina perto da cidade de Ribeirão Preto. Durante a década de 90, ao mesmo tempo em que buscava formas de interferir na paisagem celeste, Silvia Velludo observava os efeitos de outros fenômenos da natureza como a incidência da luz na água e da força do vento sobre corpos em suspensão. Na série "Chão", iniciada em 1997,  a artista eterniza em pinturas sobre espuma o que parecem ser processos de erosão do solo, transportando um relevo que comumente estaria abaixo de nossos pés à altura dos nossos corpos.

Silvia Velludo. Série Chão, 1997-2012

Silvia Velludo

 

Série Chão, 1997-2012

espuma de poliuretano, madeira e tinta acrílica

160 x 160 x 20 cm

 

id 3332

"Desce então dois lances de escada e se vê cercado por formas que lembram rochas, pedras, lavas, sedimentos e amálgamas de milhares de séculos. Deixou-se estar ali durante um tempo não avaliável pelas medidas convencionais. Está no centro de um receptáculo, em cato com as potências ctônicas da morte e do nascimento. Talvez receosa de sua onipotência, a artista evitou nuances. Tudo é branco: a negação da cor. Temendo equiparar-se a um demiurgo, não buscou seu material de trabalho na natureza, fez uso de um material sintético, produto da ciência, criando assim sua obra a partir de um referencial humano. Ciência e arte dialogam na ânsia de um reencontro que devolva ao homem a multiplicidade, perdida com a imposição da ciência como um saber autônomo." (Anette Hoffman, setembro de 1998)

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Renato Rios. "Arquétipos", 2018

Renato Rios

"Quando primeiro vi estes arquétipos, pensei logo no cruzamento entre matéria e espírito, entre forma e ideia, entre construções e sensações. Nos fenômenos que podem vir à tona nos cantos de paredes, nos arcos de janelas, nas luzes que entram por cobogós ou por debaixo das portas, nos caminhos que se abrem nas encruzilhadas. No evento que se instala numa esfinge, num obelisco. No estalo metafísico que faz perceber o que nos cerca — as casas, edifícios, abóbadas, pilastras, ruas, canteiros, etc. — a partir de um senso estético-filosófico, nos levando para além das constituições físicas dos elementos." (Germano Dushá, 2018)

Renato Rios

 

Estrela Branca, 2020

óleo sobre tela

90 x 50 cm

 

id 4894

Renato Rios

 

Luz e Sombra - Série Luzeiro, 2020

óleo sobre tela

80 x 105 cm (díptico)

Renato Rios

 

Arquétipos, 2018

guache sobre tela

22 x 16 cm (cada)

Renato Rios

 

Arquétipos, 2018

guache sobre tela

22 x 16 cm (cada)

Renato Rios

 

Arquétipos, 2018

guache sobre tela

22 x 16 cm (cada)

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Carlos Fajardo 1941 - São Paulo, Brasil Vive e trabalha em São Paulo, Brasil

Carlos Fajardo vem investigando, desde fins da década de 1960, as relações entre luz, matéria, corpo, superfície, tempo e espaço. Embora seu trabalho tenha se transformado ao longo dos anos, o desenho sempre foi uma questão de profundo interesse para Fajardo. Inicialmente associado a uma ideia de figuração, passou a ser utilizado como um modo de elaborar raciocínios visuais. O desenho abandona a representação e adota sua vocação construtiva, permitindo ao artista explorar não só a superfície em si, mas as associações entre superfícies no espaço. Além do artista, cabe ao observador um papel fundamental na construção dos significados das obras, já que é por meio de seu corpo e de sua presença que pode sentí-las e escolher a maneira mais interessante de relacionar-se com elas.

 

Sua obra tem uma presença relevante no panorama da arte brasileira assim como sua atuação de mais de 40 anos como professor. Ao longo de sua carreira, participou de diversas exposições importantes no Brasil e no exterior, dentre as quais Jovem Arte Contemporânea, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), em 1967, organizada por Walter Zanini. Participou das 9ª, 16ª, 19ª, 25ª e 29ª edições da Bienal de São Paulo, respectivamente em 1967, 1981, 1987, 2001 e 2010. Representou o Brasil na Bienal de Veneza em 1978 e em 1993. Em 2019 Fajardo participou das exposições "Os anos em que vivemos em perigo", no MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo, Brasil; "Ateliê de Gravura: da tradição à experimentação", na Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, Brasil"; “Construções e geometrias – Coleções no MuBE: Dulce e João Carlos Figueiredo Ferraz”, Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE), São Paulo. Em 2018 apresentou a individual "Diáfano – Reflexos, transparências e opacidade na obra de Carlos Fajardo", no Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, Brasil.

 

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Silvia Velludo 1963 – Ribeirão Preto, Brasil Vive e trabalha entre Ribeirão Preto e São Paulo, Brasil

Por meio da pintura, do vídeo, escultura, instalação ou fotografia, Silvia Velludo se apropria e produz uma grande quantidade de imagens e formas como uma colecionadora incansável, explorando ao máximo, em sua prática, o assunto ao qual se propõe investigar. Certas obras se debruçam sobre a questão da imagem, abordando-a em seus variados modos de existência, seja através do estudo dos efeitos de reflexão e dispersão de cor e luz, codificados pelo olho; do uso da palavra de maneira a subverter narrativas e descrições, ou até mesmo do registro fotográfico obsessivo que pode ser traduzido na pintura, e que busca dar conta de tudo aquilo que a artista viu e viveu e dos lugares por onde passou, construindo uma espécie de biblioteca visual. Projetos de intervenções monumentais que buscam atingir o céu, maquinários que surgem imponentes no espaço ultrapassando a escala humana ou pinturas e instalações de grandes dimensões parecem ilustrar bem essa vontade de alcançar o inalcançável.

 

Coleções que possuem seus trabalhos: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Brasil; Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto, Brasil; Museu de Arte de Ribeirão Preto, Brasil

 

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Renato Rios 1989 - Brasília, Brasil Vive e trabalha em São Paulo, Brasil

Formado em artes plásticas pela UnB-Universidade de Brasília, Renato Rios vem explorando, por meio da pintura, as relações entre a imagem e as narrativas do inconsciente. Entendendo a prática da pintura como um lugar de investigação das relações simbólicas, o artista convoca imagens de origens diversas e as combina, na mesma tela ou em conjuntos de dípticos, trípticos e polípticos, a fim de desenvolver uma espécie de escrita poética. Ao articular elementos visuais e dispensar o uso de palavras, Rios busca estabelecer uma comunicação de sentido mais aberto, estimulando o espectador a organizar suas próprias relações entre os elementos. Essa ação, no entanto, é guiada pelas referências que o artista nos apresenta: fragmentos de pinturas metafísicas, representações de ambientes domésticos, formas geométricas que ora nos remetem a composições suprematistas, ora a símbolos e espaços sagrados. Renato Rios se aproxima da lógica das tradições oraculares, em que o sentido do jogo é dado pela combinação entre os elementos apresentados, para explorar as possibilidades das interpretações poéticas de seus jogos de pinturas.

 

Em 2019, Rios apresentou a individual "Interiores" na Galeria Marcelo Guarnieri, São Paulo. Em 2018, a individual “Arquétipos", no Espaço Breu, São Paulo, e integrou a coletiva "OndeAndaOnda" que passou pelo Espaço Cultural Renato Russo, Brasília em 2018 e Museu Nacional Honestino Guimarães, Brasília em 2017 e 2015, com curadoria de Wagner Barja. Em 2016 foi um dos artistas selecionados para a residência artística da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e em 2011 ganhou o Prêmio de Arte Contemporânea Espaço Piloto (UnB).

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