FLÁVIO DE CARVALHO E IVAN SERPA


Flávio de Carvalho e Ivan Serpa

galeria marcelo guarnieri | ribeirão preto

abertura
23.03.2019 / 15h – 19h

período de visitação
23.03 – 11.05.2019


rua nélio guimarães, 1290
ribeirão preto – sp – brasil / 14025 290
[ mapa ]


“Enfant terrible”, “revolucionário romântico”, “pintor maldito”, “comedor de emoções”, “performático precoce” e “javali do asfalto” foram algumas das definições atribuídas a Flávio de Carvalho ao longo de sua vida. Formou-se como engenheiro na Inglaterra, voltou ao Brasil em 1922, logo após a Semana de Arte Moderna, e iniciou suas atividades profissionais em 1923, trabalhando como calculista em importantes construtoras e escritórios de arquitetura em São Paulo. “Efficácia”, seu projeto para o concurso do Palácio do Governo de 1927 é considerado o primeiro projeto modernista elaborado no Brasil, e embora tenha sido seu primeiro a ser recusado pelo júri, não foi o último. No ano seguinte, apresenta projeto para a Embaixada Argentina no Rio de Janeiro, para o Farol de Colombo na República Dominicana e outros dois para a Universidade de Minas Gerais. Todos recusados, mas não totalmente ignorados, tendo sido comentados por Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade em artigos publicados nos jornais.

Durante as décadas de 40, 50 e 60 o engenheiro-arquiteto continuará desenvolvendo projetos audaciosos para sua época, alguns para concursos, outros encomendados, mas nenhum deles realizado, com exceção do conjunto de casas da Alameda Lorena e da sua casa da fazenda da Capuava, em Valinhos, ambas de 1938. Essas construções lhe permitiram explorar algumas de suas ideias sobre modos de habitar e já evidenciavam o caráter performativo de seu trabalho. Não só na própria arquitetura – o salão central da casa da fazenda da Capuava, de formato semelhante à base de uma pirâmide, apresentava ares de monumentalidade e teatralidade com seu pé direito altíssimo, cortinas em cores variadas e uma lareira com iluminação colorida de onde caía água –, mas também no modo de apresentação – Flávio de Carvalho desenvolveu um manual de uso para as dezessete casas de aluguel da Alameda Lorena, cuja importância não era só de ordem prática, mas também conceitual – é possível observar essa orientação.

Suas abordagens sobre arquitetura e urbanismo foram mais presentes nas publicações em periódicos do que propriamente em construções. Na imprensa pôde refletir sobre os modos de habitar e construir a casa e a cidade, sobre convenções sociais, sobre os conceitos de família e sociedade e a concepção do que seria o “homem moderno” dos trópicos. Essas foram preocupações que lhe acompanharam durante toda sua vida, abordando-as de diferentes maneiras. Sua tese A Cidade do Homem Nu, apresentada em 1930 no IV Congresso Pan-Americano de Arquitetos, no Rio de Janeiro, estruturava essas ideias em um projeto de sociedade livre do peso das tradições, refletindo um debate já em andamento entre os Antropófagos. Em 1931 apresenta sua Experiência nº2, ação performática que lhe serviu de estudo sobre a psicologia das multidões, assim como pôs em prática algumas de suas reflexões sobre a relação do homem com a religião.

Seus estudos psicanalíticos também se manifestavam naqueles trabalhos desenvolvidos em suportes mais convencionais, a dizer, seus desenhos e pinturas. Walter Zanini, no catálogo da mostra de Flávio de Carvalho no Núcleo histórico da 17ª Bienal, analisa: “A penetração no estado psíquico dos modelos que retratou é das preocupações fundamentais do artista, que dedica outro tanto da atenção à captação da força erótica do corpo da mulher assim como à sua análise visceral. […] A seu modo apegado aos elementos sensoriais, tanto no retrato como na figura interna, é original na busca da persona. Longe dos convencionalismos da verossimilhança, propôs-se a discernir nas disponibilidades da imagem os elementos psicológicos definidores. Nesse processo de construção mental, os meios gráficos e plásticos que prevaleceram foram a descontinuidade frequente da linha (a carvão e a nanquim, sobretudo) e a pincelada untuosa.” O nu, tema clássico da pintura, é explorado por Carvalho de maneira menos idealizada, fazendo uso de traços enérgicos que parecem dissecar a retratada não só em seu estado psíquico, mas também anatômico. Antes de entrar no circuito das exposições de arte, até a década de 30, Flávio de Carvalho publicava seus desenhos na imprensa, fazendo deles ilustrações para textos de jornais. A produção de Flávio não foi grande em quantidade, segundo Rui Moreira Leite, seriam aproximadamente cem óleos, mil desenhos e duzentas aquarelas. Retratou seus amigos, suas mulheres, suas amigas, intelectuais, artistas e jornalistas, sempre com a intenção de captar o fundamental através de uma percepção psicológica.

Ainda interessado por aquilo que fugia da ordem da racionalidade burguesa, Flávio de Carvalho, junto ao Dr. Osório Cesar, organizou no Clube de Artistas Modernos, em 1933, uma exposição com desenhos de crianças e internos do Hospital psiquiátrico do Juqueri, causando espanto. Três anos depois publica o texto “A única arte que presta é a arte anormal” no Diário de São Paulo, onde discorre “O espírito médio deixa, portanto, de lado a única arte que contém valores artísticos profundos: a ARTE ANORMAL, bem a arte subnormal, as únicas que prestam porque contêm o que o homem possui de demoníaco, mórbido e sublime. […] A arte praticada pelas crianças é também de grande superioridade artística quando não sofre a influência do mestre. […] O desabrochar da emoção parece ser coisa tumultuosa e a beleza reside na força dessa emoção e na magnitude do tumulto, porque assim sendo caracteriza mais o problema em foco. Parece que a forma anárquica da arte, arte sem mestre, é a que mais valor pictórico contém.”

Flávio de Carvalho e Ivan Serpa

galeria marcelo guarnieri | ribeirão preto

opening
March 23, 2019 / 3 – 7pm

exhibition
March 23 – May 11, 2019


rua nélio guimarães, 1290
ribeirão preto – sp – brasil / 14025 290
[ mapa ]


Ivan Serpa, artista contemporâneo de Flávio de Carvalho, que desenvolvia no Rio de Janeiro suas pesquisas por outros caminhos, também compartilhava desse interesse pela arte das crianças e dos “loucos”. Da parte de ambos os artistas, havia uma insatisfação com os velhos paradigmas e dogmas da arte acadêmica e um fascínio pela espontaneidade daquelas manifestações artísticas desprezadas pelos ambientes consagrados da arte. Para Serpa, lhe atraía especialmente o caráter originário dessas manifestações, como se a liberdade que possuíam em relação aos padrões estabelecidos lhe desse acesso àquilo que buscava em sua própria investigação: a “essência” da arte abstrata. O artista manteve um contato muito próximo com tais manifestações, pertencendo ao núcleo original do ateliê de pintura do Hospital Psiquiátrico de Engenho de Dentro, criado em 1946 pela Dra. Nise da Silveira e Almir Mavignier e lecionando no ateliê infantil e ateliê livre de pintura do MAM-RJ a partir de 1952. Em suas aulas, estimulava uma prática experimental e sua didática era contrária à hierarquização entre professor e alunos, tão comum no ensino acadêmico. Dali surge o Grupo Frente, formado pelo artista, pelo crítico Mário Pedrosa, pelo poeta Ferreira Gullar e por alguns de seus ex-alunos como Lygia Clark, Lygia Pape, Aluísio Carvão, Franz Weissmann, Hélio Oiticica, Elisa Martins da Silveira, pintora naïf, e Carlos Val, ex-aluno do curso de arte infantil.

Serpa esteve, até então, envolvido com as discussões levantadas pelos movimentos construtivistas europeus, particularmente interessado pela arte concreta, investigando em seus trabalhos a estrutura da composição do quadro e o ritmo das formas geométricas. A sua obra Formas ganhou o Prémio Jovem Pintor Nacional da I Bienal de São Paulo, em 1951, o que ajudou a impulsionar o movimento concretista no Brasil, estimulado pelo crítico de arte Mário Pedrosa. O grupo Frente havia sido formado justamente como resposta a uma abordagem mais ortodoxa da arte concreta, que se afastava de qualquer conotação lírica ou simbólica. Criava-se ali um espaço de debate sobre a teoria e a função da arte abstrata e concreta.

Premiado no 6o Salão Nacional de Arte Moderna de 1957, viaja à Europa e retorna dois anos depois, descrente das discussões que estavam sendo travadas em solo brasileiro, como a disputa entre concretos e neoconcretos. Se na década de 50 observa-se um trabalho concentrado em formas geométricas, planos e cores, na década de 60 já se observa uma mistura dessa construção à figuras humanas que aos poucos perdem seus contornos exatos para assumir formas alegóricas, que se desmancham novamente em pinceladas ou traços muito soltos. Esses percursos não se pretendem em nada lineares ou sucessivos, a ordem real dessas transformações, aliás, é completamente inversa, o que só acaba por confirmar a irrelevância desta informação para o entendimento da obra de Ivan Serpa. O artista rejeitava limitações estilísticas e regras de desenvolvimento, sua defesa era pela renovação constante, pela liberdade e imprevisibilidade.

Sobre o caráter múltiplo de sua atividade, Jayme Maurício descreve, no catálogo da 12ª Bienal de São Paulo: “Construtivista, suprematista, concretista, posteriormente minimalista e opticalista, em toda a exuberância de sua famosa “periodicidade criativa”, Serpa, com certas exceções, foi um cultor extremado do purismo – um estudioso e pesquisador das raízes e das energias da abstração fria, do geometrismo e da matemática. Mesmo em suas fases de abstracionismo lírico, de nova-figuração expressiva (a chamada fase negra) e de erotismo gráfico, Serpa deu prioridade à estruturação, fundamental ao Concretismo, e a suas leis de alinhamento, ritmo, progressão, polaridades, regularidade, lógica interna de desenvolvimento e construção.”

Produziu, durante os anos de 1961 e 1962, alguns cadernos em folhas soltas de pinturas em nanquim. Um tipo de diário visual onde registrava suas investigações plásticas, fazendo uso não só de pincéis, como também de palitos e pequenos pedaços de madeira. O tema dos bichos e mulheres com bichos aparece pela primeira vez em seu trabalho entre 1962 e 1963, mas retorna algumas vezes em sua produção até o fim de sua vida. Essas obras, assim como as de sua famosa Fase Negra, demonstram o impacto que os efeitos de uma Ditadura Militar causaram em sua produção. “Já que não se podia vencer o inimigo social, as forças da repressão, não foram poucos os que se voltaram para o inimigo interno, a cisão psíquica, a repressão interna – alguns até mesmo em busca de uma resposta para a dúvida angustiante gerada pelo fracasso da resistência política”, reflete Reynaldo Roels Jr. no catálogo da individual do artista no CCBB em 1993.

Flávio de Carvalho e Ivan Serpa faleceram, ambos, em 1973, tendo sido homenageados com salas especiais na Bienal daquele ano. No catálogo da mostra, o crítico Roberto Pontual escreveu que entre eles era possível observar “uma mesma atitude existencial e artística, que os marcou mais fundamente do que qualquer outra circunstância: a insistente necessidade de se manterem atualizados, contemporâneos, capazes de absorver a internacionalidade presente do mundo e de o fazer em termos de sua própria vivência nacional.” Ambos foram pioneiros em suas pesquisas, atentos ao seu tempo e sua história, se repensando continuamente, explorando múltiplas formas de expressão e atuação. Ficaram marcados, sem nenhuma dúvida, como influências determinante não só sobre gerações e gerações de artistas, mas como figuras referenciais da história da arte brasileira.

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